Archive for the ‘ Contos ’ Category

Mesmos Livros; Nova Editora!

Na verdade, já nao são mais os mesmos. Toda a diagramação foi refeita. Fora que todos os três agora estao de acordo com o novo acordo ortográfico. E ainda, o livro O Centro ganhará ISBN em breve. Assim, ficará registrado para o mundo todo.

A nova editora em questão é a BookeSS. Ela também trabalha com publicação sob demanda, entretanto trata da publicação com muito mais dinamismo: os autores e usuários formam uma rede social, colaborativa, onde um autor pode escrever o livro pouco a pouco enquanto recebe palpites, ou publicar toda a obra de uma vez e disponibilizar para o publico páginas de degustação, gerado automaticamente por um vizualizador bonito, simples e intuitivo.

Dois dos livros (Cindy – Agente do CCET e Contos Compilados) estao em formato de bolso (10cm x 15cm) e o livro O Centro, em tamanho tradicional (14cm x 21cm). Com o tempo, todos eles terão versões tradicionais e versões de bolso.

O livro Contos Compilados continua sendo oferecido na AGBook e no Clube de Autores, no formato tradicional.

Confiram no meu perfil os tres livros: http://www.bookess.com/profile/rafael.alexandre/

Estão disponíveis pra venda impressos e em e-book (sendo que o livro Contos Compilados, você pode ter em PDF aqui mesmo do site, e impresso a preço de custo – ou seja, sem pequeno lucro que seria destinado a mim… xD)

Mais genial ainda: Frete Grátis! pra todo o Brasil.

Aproveitem, e divulguem.

Até mais.

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Contos Compilados!

Uma boa e uma má notícia.

A boa é que a compilação dos contos do blog saiu! E ainda disponível para download GRATUITO: AQUI!

A má é que nao publicarei mais os contos que estão no livro…

São nove contos ao todo, destes, quatro ainda estão inéditos no blog. Mas disponíveis no livro PDF pra download.

Confira o conteúdo:

  • Origem (Não publicado no blog)
  • A Árvore do Quintal
  • A.S.Bb.
  • Missão Cumprida (Não publicado no blog)
  • No Telhado
  • O Bueiro
  • O Guitarrista (Não Publicado no blog)
  • O Plano (Não Publicado no blog)
  • Passeio pelo beco

E ainda. Para aqueles gostam do livro físico e do irresistível cheiro do papel, tinta e cola de um livro novo, está disponível para venda no Clube de Autores/AGBook! Ambos pelo mesmo preço (não há diferença no serviço, as duas editoras são do mesmo grupo e a gráfica é a mesma). O bom para vocês é que fiz questão de não incidir nenhum preço de capa, portanto, o preço está “de fábrica”. Cobre apenas o custo de produção e do frete, no caso. Compre por aqui, por R$ 20,70 (+frete):

Espero que gostem. Divirtam-se

05 – Conto da Semana: Passeio Pelo Beco

Se não fosse a dor de estômago, decorrente da gastrite virando cirrose ou uma úlcera, Tonho, como era conhecido o Sr. Antônio, não teria deixado o bar naquela noite. Era quase meia noite. Sua mulher já está dormindo a pelo menos três horas. Ela não se importava tanto assim, quase já se acostumara. Afinal, Tonho sempre voltava pra casa por essas horas quando saia para beber. Seus filhos também dormiam, mas mal sabiam onde estava o pai. Tonho pensou neles, em como ele era ausente, como a mulher sempre está dormindo quando ele chega, já que ele faz questão de se atrasar em um bar e nunca chegar em casa para ter a comida ainda quente na janta. Qual era o problema afinal. O problema era criar problema, ele concluiu. Ele criava seu próprios problemas… Nunca tinha parado para pensar assim em sua vida, há dois minutos pensou mais do que uma noite inteira. Mas, mesquinhamente logo apagou sua reflexão, estava convencido que o mundo é que era cruel e não ele o acomodado.

Caminhava sozinho uma ruela fria de sarjetas empoçadas. Por ali tinha um atalho, lembrou-se ele. O abdômen dando-lhes socos e beliscões agudíssimos, isso porque ele revidou com álcool. Umas duas casas na frente. Sim, ali. Um beco. Só dava pra ver luz lá do outro lado. Ele olhou. A visão ainda não estava assim tão embaçada. Não havia nada no beco. Nada de ameaçador. Em tempo como aqueles, era preciso sempre ficar atento. Começou a caminhar em direção da escuridão da travessia. Ele ouvia seu coração, sua respiração e o pisar de seus pés no solo de barro, mais nada.

O relógio soou um bip, que ele nunca conseguiu desligar, marcando a virada do dia.

Um choro de bebê ecoou pelo beco.

Tonho parou imediatamente. Era um bebe que estava chorando. Não era dentro das casas, era ali no beco. Ele mal podia ver seus pés, naquela escuridão mas pôs-se a procurar a origem do som.

Um bebê, meu Deus, num beco, naquela hora. Ele esqueceu suas preocupações e pensamentos e senti-se minimamente solidário. Afinal, não deixaria uma criança no meio daquela noite fira e escura, todavia não ficaria tão aliviado em tê-la em seus braços. Ainda sim procurava.

Ali. Uma massa escura se mexia. Sim ela ele. O bebê perdido. Como, ele se perguntava, como um bebê ali. Que coisa mais desumana. Segurou o bebe, meio sem jeito. Devagar ele ia andando, o bebe calou-se mais um pouco.

Tonho notara um ligeiro incomodo ao carregar a criança. Era indefinível,mas ela estava cada vez mais difícil de carregar. Talvez por ele não ter nenhuma prática com crianças, deixava tudo para a mulher, mas ele já carregou crianças antes, esta estava particularmente difícil.

Lutava para manter a criança no colo e não deixá-la cair. Mas que coisa. A escuridão atrapalhava muito, ele não tinha certeza de onde pegava, não sabia se poderia machucar o bebê.

Quase ele lhe escapa da mão! Tonho soltou uma exclamação abafada e quase um palavrão.

Nos últimos dois metros, além da dificuldade de manter a criança em seu colo, ela adquiriu um peso incompreensível. Aquilo já estava ficando insustentável. Tonho queria imediatamente a luz do poste para poder ajeitar-se com o bebê.

Quando foi banhado pela luz e pode olhar o bebê. O largou no chão prontamente.

Estivera carregando uma criatura indefinível que o olhava fixamente com olhos brancos, quase amarelados. Abriu uma boca grotesca que pareceu sorrir-lhe. Tonho sentia o coração palpitando na garganta. A coisa soltou um grunhido e disparou de volta ao beco.

Tonho ajoelhou e vomitou tudo o que comera naquele dia. Dali correu para casa e suou frio até o meio dia do dia posterior. Como terror da figura do bebê monstro não lhe saindo da visão.

Nunca mais bebeu, tornou-se um homem melhor desde então.

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04 – Conto da Semana: No telhado

A noite naquele lugar estava mais escura e fria do que costumava ser. Lívia não gostava nada de ter que dormir toda empacotada, afinal, nunca conseguia cobrir os pés e ao mesmo tempo a cabeça. Um acabava ficando de fora do alcance do lençol.

Ainda mais que na casa dos tios não havia forro. Estava lá para as férias de maio da escola. Passava-os lá, brincando intermitentemente com a prima Patrícia. E ainda no próximo final de semana completaria quatorze anos.

Mas naquele momento ela só prestava atenção ao frio incomodante. E naqueles barulhos, estalidos que vinham do telhado. No silêncio de quase uma hora da manhã, pareciam estrondos.

E acabaram virando estrondos…

Era como se alguma coisa andasse no telhado. Alguma coisa que não tinha a mínima habilidade de fazer isso.

Isso não é um gato!

Os barulhos continuavam. Lívia não conseguiria mais pregar o olho. Estava nervosa demais para isso. Seu coração batia acelerado, seu rosto esquentava. O barulho foi seguindo até a borda do telhado, acima da janela do quarto onde ela estava.

De repente um baque surdo. Alguma coisa caiu no chão, bem na direção da janela.

A janela sacudiu com força. Lívia deu um grito agudo, mais parecido com um piado e agarrou o travesseiro. A janela não abriu. De novo Lívia ouvia o barulho no telhado.

O que quer que estivesse lá fora, caiu e depois subiu de novo no telhado usando a janela como apoio. Lívia não sabia se corria a avisar os tios ou avisava-os dali mesmo, com um grito alto, talvez afugentando de vez aquela coisa lá fora. decidiu ir até os tios.

Do teto baixo, irrompeu uma perna. Uma perna fina, coberto por um jeans  escurecido por sujeira e rasgado. Lívia pulou de volta para a cama. Ela gritava. Chorava também. Aluguem estava no telhado, justo sobre o quarto onde ela estava.

– TIO, TIA, SOCORRO!

Ninguém atendia.

Novamente o telhado quebrou-se e um braço apareceu, desta vez, bem acima de Lívia. Ela olhou ara cima, viu o céu lá fora. consegui ver uma ou duas estrelas pelo buraco. Quando aquele rosto apareceu. Cabelos longos e ensebados, pele engelhada e sem um nariz, aliás, sem todo o lábio superior. Um mórbido sorriso de dentes arregalados. Olhou diretamente para Lívia. Um olhar louco. Olhos enormes, negros e opacos. Estranhamente atraentes.

Lívia gritava mais ainda. O pânico que sentia secava sua garganta, e drenava suas forças. Arfava vigorosamente. O ar não entrava.

A coisa já não estava mais a fitá-la do buraco. Mas aquele baque surdo no chão, ao pe da janela,  soou de novo. E assim como antes, a janela sacudiu. Sacudiu até abrir.

Aquela coisa homem estava parada lá fora. olhava fixamente nos olhos de Lívia. A claridade da lua lá fora refletia em seus cabelos oleosos e brilhava em seus olhos. Ele cobria-se com vários trapos velhos que um dia foram roupas. Pôs sua mão magra de dedos carcomidos sem nenhuma unha no parapeito da janela e pôs-se a se arrastar para dentro da forma mais estranha que alguém poderia fazer isso. Ele conseguiu por uma das pernas no parapeito, a torceu para trás, seu calcanhar ficou voltado para dentro do quarto a outra perna ergueu-se e apoiou-se na moldura da direita e os braços esticaram-se à procura do chão do quarto. A cabeça torceu-se para manter os olhos fixos em Lívia enquanto ele fazia sua manobra estranha de entrada pela janela. Deslizou para dentro com múltiplos estalos de ossos. De novo ergueu-se. andava com dificuldade, como se espasmos o acometessem nos ombros e nas pernas a todo instante. Também estalava enquanto andava.

Lívia estava petrificada, mesmo se o travesseiro fosse de aço, seus dedos certamente já o teriam marcado.

Apesar de tudo, Lívia não conseguiu entender o que a atraía naquele olhar. Deixou ele vir cada vez mais perto. Já não sentia mais medo. Um torpor absoluto.

A coisa deslocava-se até perto. Seduzindo a garota ali na cama.

Lívia amanheceu sem as roupas que vestia. O telhado estava integro e a janela fechada. Seus tios não ouviram absolutamente nada de errado vindo do quarto.

Mas ela não comemoraria seu aniversário. Estava morta.

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Em breve uma compilação, aguardem!

03 – Conto da Semana: A.S.Bb.

O ano é 2042, (a.S.Bb). Ano passado, desenvolvemos em nosso Centro Avançado de Pesquisa de Física e Tecnologia (a CAPEFIT) uma Esfera de Posi-Neuitrinos. Anos de estudo sobre o que é a matéria negra deu nisso. Eu era chefe da área de pesquisa principal sobre esse assunto.

Meu nome? Chamo-me Runofrae (leia |runoufrei|, sempre lêem errado meu nome…) tinha por volta de meus vinte e um vinte e dois anos de idade quando me formei em Física numa Universidade Federal. Uma instituição que tornou-se ponta em ensino da Física depois que entrei com esse projeto quando, então, pleiteava o Doutorado em outro país. A CAPEFIT já existia e tinha vários projetos de renome, mas o meu projeto era pioneiro no mundo inteiro. Responsabilidade? Talvez, pois a coisa era tão nova que qualquer coisa que eu dissesse seria válido com informação fidedigna. Ninguém tinha como contestar. Ao passo que se eu estivesse errado, poderia voltar a trás, eu nunca tive vergonha de assumir meus erros. Além disso, pensar sobre ter ou não a responsabilidade sobre alguma coisa importante nos tira o foco do que realmente importa: fazer o que se tiver pra fazer, direito e bem feito.

Agora em meu apartamento está uma garota linda. Chipou. (leia |txipô|, não é assim tão diferente…). Está se debulhando em lágrimas. Eu a amo. Mais do que tudo, a amo. Ela sabe muito bem disso. Por isso está aqui, sentada em minha cama. Seus olhos injetados ressaltam o verde de suas íris. Os cabelos dourados presos com um prendedor na base da nuca. Prendedor este que está escorregando, quase soltando seus cabelos. Os cílios compridos fazem o contorno irresistível de seu olhar. As mãos delicadas repousam entre suas pernas com os dedos cruzados. Ela está bastante aflita.

A boca rubra e convidativa na qual eu me perdi várias vezes, pede-me desculpas faz alguns minutos. Eu já a perdoei, em absoluto. Eu a amo, já disse isso. Quem ama, perdoa com uma facilidade quase ingênua. Só que eu ainda não disse isso a ela. Por isso ela permanece tão inquieta. Lacrimeja enquanto me olha. Encosto o rosto dela em meu peio ao me sentar do lado dela, ela me abraça e continua a chorar. Ainda me pergunta se a perdoei. Será mesmo que ela precisa ouvir? E o que eu estou fazendo é quase mórbido. Ela não pára de chorar e eu continuo impassível para ela. Deixo-a chorar sua culpa.

Mas vocês talvez não a perdoassem.

O que ela tem haver com toda aquela introdução que eu dei? Sobre a Esfera de Posi-Neutrinos e tudo mais? Esse é o ponto. Se eu contasse, vocês talvez não a perdoariam como eu perdoei.

Chipou trabalhava na Fundação de Ciências Aplicadas de Física e Química (FUCAFIQ – é tanta da sigla, mas nessas áreas de Ciências Exatas é sempre assim). Lá eles também tinham certa pesquisa nessa área, mas não chegavam nem a engatinhar no assunto. Acho que já captaram a mensagem… Nós já tínhamos um protótipo o Condensador e Contentor de Partículas quando eles ainda estudavam o que se tratava a matéria negra e as partículas de carga positiva pertencentes à matéria escura cósmica (o positrino, que fora descoberto com sendo a real matéria negra, já que o neutrino era mais onda do que partícula).

Mas e por diabos, o que eu são esses trecos de nomes esquisitos? Bem. Todos os elementos da nossa natureza são formatos por partes infinitesimais de matéria: os átomos. Até aí nenhum mistério. Esses átomos, quando combinados de diferentes formas formam determinada molécula. Esta molécula, por sua vez, une-se a outras moléculas e formam a matéria que nós conhecemos. O cloreto de sódio, por exemplo, o nosso conhecido sal de cozinha tem sua fórmula como NaCl, ou seja, um átomo de Sódio e outro de Cloro, formando a molécula cloreto de sódio. As forças que mantém esses átomos unidos são denominados forças interatômicas, que são na verdade, forças eletromagnéticas. O mesmo com as moléculas formadas por esses átomos. É como se agente pegasse dois ímãs e os grudasse. Ali estão representados uma molécula (ou átomo) unido ao outro. Assim, unindo vários ímãs, podemos formar uma figura. Assim são feitas as coisa em que tocamos.

Incrível não é. Agora imagine que para formar estas folhas de papel que você segura são necessários milhões e milhões de átomos. Um número que representa quantos átomos existem em um mol (que é uma quantidade padrão na física e na química e representa a quantidade de certa partícula em certa substância) é o número de Avogrado, descoberto por um físico italiano, Amadeo Avogrado (1776-1856), e é  da ordem de 6,022 x 1023 . Ou seja, 602.200.000.000.000.000.000.000 átomos num mol de uma substância qualquer.(Seis seguido de vinte e três zeros). Um mol pode ser usado para medir qualquer coisa, funciona quase como as dúzias. Mas duvido que se você chegasse numa padaria e pedisse um mol de ovos, você teria o que veio comprar. Primeiro, por que o atendente, dependendo de seu grau de instrução, não saberá o que é um mol. Segundo que a padaria nunca terá tantos ovos assim…

Poderíamos ir longe na explicação físico-quimica, mas acho que não vem ao caso. Se for necessário, aprofundar-me-ei no assunto que por ventura vier a aparecer. O fato é que já tínhamos em laboratório um mol de neutrinos e um mol de positrinos dentro de nosso CCP (só para lembrar: Condensador e Contentor de Partículas).

Descobrimos que a energia gerada por essas substâncias, quando em colisão uma com a outra, eram quase infindáveis. Formamos então duas esferas. Uma composta de neutrinos e outra de positrinos.

Rapidamente descobrimos que neutrinos não se mantinham unidos. Gastava-se mais energia para mantê-los em um conjunto do que esse conjunto gerava em energia para nós. Simplesmente inviável. Já com os positrinos foi mais fácil.

Você pode estar se perguntando: Por que?

Os neutrinos não tem carga elétrica (daí o prefixo “neutr”, de neutro) assim como os nêutrons no núcleo dos átomos que nós conhecemos. Como então um átomo pode ter nêutrons em seu núcleo e não se desfazer? Existem outras duas cargas num mesmo átomo (as outras duas que restaram, obviamente) uma positiva, o próton, e uma negativa, o elétron. O nêutron está lá “segurando” as cargas positivas que também estão no núcleo de um átomo, anulando sua ação repulsiva. Afinal, se colocarmos pólos iguais de dois imãs juntos, eles vão se repelir, isso acontece também em escala atômica. Os elétrons (sendo negativos) não “grudam” no núcleo justamente pelo fato do nêutron neutralizar a ação positiva das cargas eletromagnéticas no núcleo. Os elétrons, não tendo outra opção por assim dizer, orbitam ao redor do núcleo. Além disso, eles, os elétrons, ficam muito afastados do núcleo. Para se ter idéia do tamanho da órbita de um átomo, imagine agora um estádio de futebol. No centro dele há uma bolinha de ping-pong, e você está na última fileira da arquibancada, lá em cima. A bolinha no centro do gramado é o tamanho do núcleo e a distancia entre você e ela é a distancia do núcleo em relação ao elétron. Portanto uma carga neutra não se “gruda” a outra carga neutra. Um lápis não gruda noutro lápis (a menos que se passe cola ou algo semelhante), no nosso caso, geramos campos eletromagnéticos tão fortes quanto gerados por tokamaks, que são as máquinas que geram o plasma, para mantermos os neutrinos unidos.

Mas ao misturarmos neutrinos com positrinos e gerarmos uma carga elétrica negativa de algumas centenas de voltz, foi o suficiente para mantermos a estrutura estável. E ao bombardearmos essa esfera com outros positrinos, conseguimos tanta energia que estouramos transformadores e queimamos alguns equipamentos da primeira vez.

O que conseguimos foram 2 Tw/s. Dois trilhões de watts por segundo.

E bastam pouco mais do que 0,0008 mols de positrinos para bombardear o núcleo por cerca de um mês.

Faça a conta comigo. Quantos segundos tem uma hora? Cerca de 3.600. Gerando 2 TW/s equivaleria a 7.200.000.000 MW/h.

Você sabe qual o consumo médio de uma cidade como Manaus? Cerca de 5.000.000 MW/h, ou seja, apenas 0,069% do total.

Já viu no que isso daria.

Uma forte disputa de poderes. A ciência às vezes ajuda e muito, mas cria sempre situações muito delicadas.

Eu disse que essa esfera tem um raio da ordem de 1×10^9 ? Ou seja, um nanômetro.

Foi no dia dessas descobertas e desses resultados mais do que animadores que conheci Chipou. Numa churrascaria, quando comemorávamos com minha equipe o sucesso nas pesquisas. Elas chegou deslumbrante e se apresentou.

Falou diretamente comigo, fitando-me absolutamente os olhos. Naquela claridade de final de tarde, quando o sol bate oblíquo nos muros em seu tom amarelado, seus olhos eram mágicos, hipnotizadores. Eu a conhecia de vista das vezes que visitei o FUCAFIQ. Sabia que ela era uma pesquisadora de lá e sabia da sua competência, mas nunca a vi daquele jeito. Na verdade nunca a tinha visto de nenhum jeito, talvez de costas e com um avental, quando me apontaram-na, mas nunca olhei seu rosto.

Até agora.

Apaixonei-me imediatamente.

Estava com os cabelos presos feito rabo de cavalo, um vestido azul. Sem alças.

Meus colegas só a perceberam ali alguns minutos depois. Ela apareceu mansamente e foi ficando. Eles depois me confessaram o quanto acharam-na bonita.

Depois desse jantar, saímos juntos!

Cheguei a achar que, por contribuir com tal importante descoberta científica, alguém com poderes acima de qualquer um de nós deu-me uma recompensa após anos de reclusão e estudo. A isso, eu agradeci.

Ledo engano é a paixão assim fulminante.

Chipou mostrava-se, obviamente, muito interessada nas pesquisas acerca da Esfera. Com bacharelada em Química com Doutorado em matéria sólida, ela entendia as coisa rapidamente, sem muitas explicações.

Era bonita e inteligente. Qualidades difíceis nas áreas de Ciências Exatas, sem preconceito! Geralmente mulheres assim trabalham na área Biológica.

De fato eu confiava em Chipou. Mostrava a ela nossas instalações e algumas das minhas anotações.

Até o dia em que meu chefe disse estar transferindo os recursos e o material da pesquisa para as mãos dos cientistas da FUCAFIQ.

O que aconteceu no dia seguinte da noite em que passei inteiramente acordado, após ter visto Chipou com ele em um restaurante no centro da cidade.

Eu não fazia idéia o quanto eu poderia ser tão tolo. Posso ser inteligente, mas provei que inteligência não é esperteza. Fui enganado. Enganado e traído. Tanto no trabalho quanto no lado pessoal.

Por que Chipou foi aparecer na minha vida? Só para me roubar o projeto mais importante da minha vida! E era tudo tão experimental ainda! Mas não houve argumentação. Durante uma semana ou mais, tive que dar palestras involuntárias sobre o funcionamento das máquinas, sobre as anotações, sobre tudo. Para que o pessoal do FUCAFIQ ficasse inteirado das pesquisas até ali.

Sabe quando você se sente um completo idiota? Quantas pessoas naquele auditório sabiam o que Chipou fez comigo? Eu não sabia dizer. Mas para mim, todos sabiam, e quando eu virava, parecia que alguns cochichos sempre eram sobre isso…

Chipou não apareceu a nenhuma das palestras, nenhuma das demonstrações do funcionamento do maquinário, nenhuma das vezes que tive que ir a FUCAFIQ para um ou outro esclarecimento.

Faz um mês que o projeto está lá com eles.

Hoje Chipou apareceu para mim desde aquele dia. E eu sinto que ainda a amo… o que há de errado comigo?

Ela me disse o que fez, não em seus detalhes, pois eu nunca quereria ouvir. Ela sabia do projeto e foi diretamente a mim. Sobe de tudo, passou pro pessoal do trabalho dela e então “falou” com meu chefe…

E, para algum consolo maquiavélico meu, ela disse que achava que participaria da equipe principal. Mas as coisas não foram assim para ela. Ela também ficara a ver navios.

É pra rir ou pra chorar?..

Por isso ela não aparecia a nenhuma das reuniões, além do fato de não fazer parte da equipe, parece que lhe abateu um grande remorso. Ela acabou descobrindo projetos muito mais prejudiciais para as Esferas do que os nossos, que eram puramente de contribuição para a sociedade. Eles queriam fazer de tudo. Mas para fins bélicos ou de propriedade particular.

Claro que eu e minha equipe poderia começar nossos próprios estudos tudo de novo. Não fosse a patente cedida pelo meu chefe à FUCAFIQ das Esferas. Agora era um projeto exclusivamente deles.

Chipou ainda chora. Ela estava nos laboratórios hoje de manhã. Disse que iam testar as Esferas em outra máquina, desenvolvida lá mesmo. A máquina prometia quadruplicar a energia gerada pelas Esferas.

Para quê tanta ganância?

Chipou está me olhando com seus lindos olhos verdes. Quase implorando calada por minhas palavras.

Eu lhe direi…

Lá fora ficou tudo escuro de repente. Um tremor imenso e tudo ficou branco.

– Chipou, eu…

Essas são as memórias de Runofrae Admael, descobridor da Energia escura e inventor da Esfera de Posi-Neutrinos até o exato momento em que sua invenção, nas mãos erradas, geraram no ano de 2042 um Segundo Bigbang. Dando reinício o nosso universo. Condensando matéria em um buraco negro e explodido a massa concentrada logo em seguida.

02 – Conto da Semana: O Bueiro

Não tinha mais que doze anos quando Marcos descobriu aquelas criaturas no esgoto.

Pode parecer um tanto perigoso e anti-higiênico, mas ele e sua pequena turma costumavam brincar nos arredores da entrada de um bueiro daquele de sarjeta, onde toda água deve escoar para dentro, que nada mais é do que uma enorme caixa de concreto com alguns canos no fundo. Morava em um bairro de periferia e aquele bueiro ficava na frente de um terreno baldio, diga-se de passagem, o melhor terreno baldio da cidade na sua opinião. Havia nele uma árvore e a carcaça de um Fusca 66 abandonado. Ele e mais três amigos que formavam o grupinho capinaram um pequeno pedaço onde batiam bola e jogavam bolas de gude, lá no fundo do terreno.

Era uma tarde avermelhada de setembro. Marcos e sua turma já tinham decidido voltar para casa naquela altura. Os outros meninos desceram na frente, Marcos foi o último a sair do terreno, ficara amarrando o sapato. Assim que pôs o pé no asfalto depois de saltar a boca do bueiro, ele ouviu aquele barulho molhado. De algo chicoteando na água.

Na água de dentro do bueiro.

Curioso, olhou por cima do ombro para dentro do bueiro. Só viu a escuridão. Quando pensou em desviar o olhar, um barulho grave brotou de lá de dentro. E novamente o barulho de algo chapinhando na água. Olhou para o fim da rua, seus amigos já desciam a uns cinqüenta metros. Não tinha coragem de gritar alto o suficiente para Chamá-los.

Mas teve a coragem de decidir olhar dentro do bueiro sozinho.

E olhou.

Sentiu um bafo quente e embolorado saindo lá de dentro ao aproximar-se se ajoelhando na rua. Devagar ele foi inclinando a cabeça para olhar o fundo do bueiro.

Não conseguia ver nada.

Até o momento em que aqueles olhos amarelos de pupilas em forma de fenda penetraram os seus de dentro das profundezas escuras do bueiro.

Petrificado, Marcos ficou a fitar aquele par de olhos, aproximou ainda mais o rosto da entrada do bueiro, quase encostava a testa na tampa. Os olhos lá em baixo piscaram uma vez, ainda olhando para ele diretamente. Um segundo par de olhos apareceu, desta vez à sua esquerda, a centímetros de seu rosto.

Desta vez o susto foi inevitável e ele jogou-se para trás, sentando e arrastando-se para o meio da rua. O peito arfante, o coração batendo alucinadamente e o suor que começara a brotar pegajoso em sua testa.

Do meio da rua, observou os olhos sumirem na escuridão. De dentro do bueiro um braço esguio mas musculoso, com unhas afiadas e coberto com um couro negro e brilhoso, saiu lentamente e tateou o chão devagar. Nada encontrando, tornou a voltar para a escuridão e os olhos amarelos voltaram a fitar os de Marcos.

Um carro vinha subindo a rua e jogou luz para que o garoto saísse do meio da rua.

– Que houve garoto? Tá querendo morrer? – praguejou o velho que dirigia o carro enquanto Marcos arrastava-se para o lado oposto ao bueiro.

Esperou o carro passar ainda sentado no chão, olhou para o bueiro, mas não havia mais nenhum par de olhos amarelos lá. Procurou ouvir também o outrora constante barulho de passos na água. Nada.

Praticamente correu de volta para casa.

Até hoje Marcos vê as criaturas em todo bueiro aberto que encontra.

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Há uma semelhança deste conto com o “A Árvore do Quintal”: as criaturas. Não por falta de imaginação minha, mas porque os dois contos surgiram no mesmo dia e quis explorar lados diferentes dessas criaturas que tinha acabado de criar: Agressivas ou esquivas? Quais seriam mais pavorosas? Até hoje não sei…

01 – Conto da Semana: A Árvore do Quintal

Bruno adorava suas férias na casa de sua avó. Era uma casa grande num terreno fora da cidade. Era um lugar único. Uma área imensa onde ele, junto com os primos, divertia-se bastante. Mais ainda na árvore que havia no quintal bem próximo da casa. Passavam horas pendurados nos galhos da grande e velha árvore do quintal.

Era de noite, ele já havia até começado a sonhar quando escutou um barulho na árvore lá fora. Do quarto escuro no segundo andar da casa, ele observava deitado na cama os galhos da arvore sacudirem. As folhas batiam na janela e depois paravam.

Não era vento.

Os galhos voltaram a sacudir novamente. Um, depois o outro e outro. Como se algo se movesse nos galhos…

Aquele vulto negro que apareceu entre os galhos lhe deu essa certeza. Havia algo na árvore naquela noite.

“Um macaco?” – pensou ele.

É. Provavelmente era um macaco, ele concluiu. Levantou-se da cama e foi até perto da janela. Olhou pelo vidro e não viu mais nada entre os galhos. Só a arvore balançando com o vento e as estrelas brilhando forte no céu. E, perdida entre os galhos, uma lua cheia que iluminava todo o campo atrás da casa.

Bruno abriu a janela.

Sentiu o vento frio, quase cortante, da noite campestre às 2 da manhã. Encostou no parapeito, úmido de orvalho. O vento balançou uma folhinha que estava ao seu alcance. A paz daquela noite era incrível. Esticou a mão para tocar a folha.

Quando a criatura irrompeu pela janela. Ficou em pé na moldura olhando Bruno que se estatelou no chão de susto.

A criatura tinha dedos com garras sujas e enormes, grandes olhos amarelos, uma pele lisa e brilhante, esquelético porém com músculos aparentes, uma enorme cabeça com pequenos chifres e uma boca de onde brotava dentes afiados e desaparelhados. Ela babava. Respirava forte, seu peito expandia-se e contraías-se juntamente com suas narinas. O rosto horrendo da criatura ficou encarando um Bruno lívido.

De repente a coisa pulou dentro e sumiu nas sombras do quarto. Bruno, desesperado, sem fôlego nem para gritar, arrastou-se de costas para a beirada da cama, encostou-se nela e ali ficou escutando e vendo de relance a criatura passar veloz mente pelo teto, pelas paredes, mesmo no chão. Apenas o vulto e o barulho de garras raspando a madeira.

De repente silêncio.

Bruno respirava com muita dificuldade. O choro o afogava apertado lhe a garganta. Se tivesse algum problema cardíaco já teria tido um infarto. Estava rubro. O rosto coberto por lágrimas. Soluçava baixinho quando de debaixo da cama onde se encostava os longos braços com garras afiadas surgiram, agarraram-no com força e puxaram-no para debaixo da cama.

Nunca mais se teve notícia de Bruno.

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Esse foi um dos primeiros contos de horror, inspirado pelo mestre Stephen King, que eu escrevi, e isso já faz mais de 5 anos… A partir de hoje, semanalmente, pretendo colocar um conto novo aqui no blog. Quem gosta de suspense e horror, espero que possam gastar 3 ou 4 min para ler ^^

Até a próxima.