04 – Conto da Semana: No telhado


A noite naquele lugar estava mais escura e fria do que costumava ser. Lívia não gostava nada de ter que dormir toda empacotada, afinal, nunca conseguia cobrir os pés e ao mesmo tempo a cabeça. Um acabava ficando de fora do alcance do lençol.

Ainda mais que na casa dos tios não havia forro. Estava lá para as férias de maio da escola. Passava-os lá, brincando intermitentemente com a prima Patrícia. E ainda no próximo final de semana completaria quatorze anos.

Mas naquele momento ela só prestava atenção ao frio incomodante. E naqueles barulhos, estalidos que vinham do telhado. No silêncio de quase uma hora da manhã, pareciam estrondos.

E acabaram virando estrondos…

Era como se alguma coisa andasse no telhado. Alguma coisa que não tinha a mínima habilidade de fazer isso.

Isso não é um gato!

Os barulhos continuavam. Lívia não conseguiria mais pregar o olho. Estava nervosa demais para isso. Seu coração batia acelerado, seu rosto esquentava. O barulho foi seguindo até a borda do telhado, acima da janela do quarto onde ela estava.

De repente um baque surdo. Alguma coisa caiu no chão, bem na direção da janela.

A janela sacudiu com força. Lívia deu um grito agudo, mais parecido com um piado e agarrou o travesseiro. A janela não abriu. De novo Lívia ouvia o barulho no telhado.

O que quer que estivesse lá fora, caiu e depois subiu de novo no telhado usando a janela como apoio. Lívia não sabia se corria a avisar os tios ou avisava-os dali mesmo, com um grito alto, talvez afugentando de vez aquela coisa lá fora. decidiu ir até os tios.

Do teto baixo, irrompeu uma perna. Uma perna fina, coberto por um jeans  escurecido por sujeira e rasgado. Lívia pulou de volta para a cama. Ela gritava. Chorava também. Aluguem estava no telhado, justo sobre o quarto onde ela estava.

– TIO, TIA, SOCORRO!

Ninguém atendia.

Novamente o telhado quebrou-se e um braço apareceu, desta vez, bem acima de Lívia. Ela olhou ara cima, viu o céu lá fora. consegui ver uma ou duas estrelas pelo buraco. Quando aquele rosto apareceu. Cabelos longos e ensebados, pele engelhada e sem um nariz, aliás, sem todo o lábio superior. Um mórbido sorriso de dentes arregalados. Olhou diretamente para Lívia. Um olhar louco. Olhos enormes, negros e opacos. Estranhamente atraentes.

Lívia gritava mais ainda. O pânico que sentia secava sua garganta, e drenava suas forças. Arfava vigorosamente. O ar não entrava.

A coisa já não estava mais a fitá-la do buraco. Mas aquele baque surdo no chão, ao pe da janela,  soou de novo. E assim como antes, a janela sacudiu. Sacudiu até abrir.

Aquela coisa homem estava parada lá fora. olhava fixamente nos olhos de Lívia. A claridade da lua lá fora refletia em seus cabelos oleosos e brilhava em seus olhos. Ele cobria-se com vários trapos velhos que um dia foram roupas. Pôs sua mão magra de dedos carcomidos sem nenhuma unha no parapeito da janela e pôs-se a se arrastar para dentro da forma mais estranha que alguém poderia fazer isso. Ele conseguiu por uma das pernas no parapeito, a torceu para trás, seu calcanhar ficou voltado para dentro do quarto a outra perna ergueu-se e apoiou-se na moldura da direita e os braços esticaram-se à procura do chão do quarto. A cabeça torceu-se para manter os olhos fixos em Lívia enquanto ele fazia sua manobra estranha de entrada pela janela. Deslizou para dentro com múltiplos estalos de ossos. De novo ergueu-se. andava com dificuldade, como se espasmos o acometessem nos ombros e nas pernas a todo instante. Também estalava enquanto andava.

Lívia estava petrificada, mesmo se o travesseiro fosse de aço, seus dedos certamente já o teriam marcado.

Apesar de tudo, Lívia não conseguiu entender o que a atraía naquele olhar. Deixou ele vir cada vez mais perto. Já não sentia mais medo. Um torpor absoluto.

A coisa deslocava-se até perto. Seduzindo a garota ali na cama.

Lívia amanheceu sem as roupas que vestia. O telhado estava integro e a janela fechada. Seus tios não ouviram absolutamente nada de errado vindo do quarto.

Mas ela não comemoraria seu aniversário. Estava morta.

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Em breve uma compilação, aguardem!

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