03 – Conto da Semana: A.S.Bb.


O ano é 2042, (a.S.Bb). Ano passado, desenvolvemos em nosso Centro Avançado de Pesquisa de Física e Tecnologia (a CAPEFIT) uma Esfera de Posi-Neuitrinos. Anos de estudo sobre o que é a matéria negra deu nisso. Eu era chefe da área de pesquisa principal sobre esse assunto.

Meu nome? Chamo-me Runofrae (leia |runoufrei|, sempre lêem errado meu nome…) tinha por volta de meus vinte e um vinte e dois anos de idade quando me formei em Física numa Universidade Federal. Uma instituição que tornou-se ponta em ensino da Física depois que entrei com esse projeto quando, então, pleiteava o Doutorado em outro país. A CAPEFIT já existia e tinha vários projetos de renome, mas o meu projeto era pioneiro no mundo inteiro. Responsabilidade? Talvez, pois a coisa era tão nova que qualquer coisa que eu dissesse seria válido com informação fidedigna. Ninguém tinha como contestar. Ao passo que se eu estivesse errado, poderia voltar a trás, eu nunca tive vergonha de assumir meus erros. Além disso, pensar sobre ter ou não a responsabilidade sobre alguma coisa importante nos tira o foco do que realmente importa: fazer o que se tiver pra fazer, direito e bem feito.

Agora em meu apartamento está uma garota linda. Chipou. (leia |txipô|, não é assim tão diferente…). Está se debulhando em lágrimas. Eu a amo. Mais do que tudo, a amo. Ela sabe muito bem disso. Por isso está aqui, sentada em minha cama. Seus olhos injetados ressaltam o verde de suas íris. Os cabelos dourados presos com um prendedor na base da nuca. Prendedor este que está escorregando, quase soltando seus cabelos. Os cílios compridos fazem o contorno irresistível de seu olhar. As mãos delicadas repousam entre suas pernas com os dedos cruzados. Ela está bastante aflita.

A boca rubra e convidativa na qual eu me perdi várias vezes, pede-me desculpas faz alguns minutos. Eu já a perdoei, em absoluto. Eu a amo, já disse isso. Quem ama, perdoa com uma facilidade quase ingênua. Só que eu ainda não disse isso a ela. Por isso ela permanece tão inquieta. Lacrimeja enquanto me olha. Encosto o rosto dela em meu peio ao me sentar do lado dela, ela me abraça e continua a chorar. Ainda me pergunta se a perdoei. Será mesmo que ela precisa ouvir? E o que eu estou fazendo é quase mórbido. Ela não pára de chorar e eu continuo impassível para ela. Deixo-a chorar sua culpa.

Mas vocês talvez não a perdoassem.

O que ela tem haver com toda aquela introdução que eu dei? Sobre a Esfera de Posi-Neutrinos e tudo mais? Esse é o ponto. Se eu contasse, vocês talvez não a perdoariam como eu perdoei.

Chipou trabalhava na Fundação de Ciências Aplicadas de Física e Química (FUCAFIQ – é tanta da sigla, mas nessas áreas de Ciências Exatas é sempre assim). Lá eles também tinham certa pesquisa nessa área, mas não chegavam nem a engatinhar no assunto. Acho que já captaram a mensagem… Nós já tínhamos um protótipo o Condensador e Contentor de Partículas quando eles ainda estudavam o que se tratava a matéria negra e as partículas de carga positiva pertencentes à matéria escura cósmica (o positrino, que fora descoberto com sendo a real matéria negra, já que o neutrino era mais onda do que partícula).

Mas e por diabos, o que eu são esses trecos de nomes esquisitos? Bem. Todos os elementos da nossa natureza são formatos por partes infinitesimais de matéria: os átomos. Até aí nenhum mistério. Esses átomos, quando combinados de diferentes formas formam determinada molécula. Esta molécula, por sua vez, une-se a outras moléculas e formam a matéria que nós conhecemos. O cloreto de sódio, por exemplo, o nosso conhecido sal de cozinha tem sua fórmula como NaCl, ou seja, um átomo de Sódio e outro de Cloro, formando a molécula cloreto de sódio. As forças que mantém esses átomos unidos são denominados forças interatômicas, que são na verdade, forças eletromagnéticas. O mesmo com as moléculas formadas por esses átomos. É como se agente pegasse dois ímãs e os grudasse. Ali estão representados uma molécula (ou átomo) unido ao outro. Assim, unindo vários ímãs, podemos formar uma figura. Assim são feitas as coisa em que tocamos.

Incrível não é. Agora imagine que para formar estas folhas de papel que você segura são necessários milhões e milhões de átomos. Um número que representa quantos átomos existem em um mol (que é uma quantidade padrão na física e na química e representa a quantidade de certa partícula em certa substância) é o número de Avogrado, descoberto por um físico italiano, Amadeo Avogrado (1776-1856), e é  da ordem de 6,022 x 1023 . Ou seja, 602.200.000.000.000.000.000.000 átomos num mol de uma substância qualquer.(Seis seguido de vinte e três zeros). Um mol pode ser usado para medir qualquer coisa, funciona quase como as dúzias. Mas duvido que se você chegasse numa padaria e pedisse um mol de ovos, você teria o que veio comprar. Primeiro, por que o atendente, dependendo de seu grau de instrução, não saberá o que é um mol. Segundo que a padaria nunca terá tantos ovos assim…

Poderíamos ir longe na explicação físico-quimica, mas acho que não vem ao caso. Se for necessário, aprofundar-me-ei no assunto que por ventura vier a aparecer. O fato é que já tínhamos em laboratório um mol de neutrinos e um mol de positrinos dentro de nosso CCP (só para lembrar: Condensador e Contentor de Partículas).

Descobrimos que a energia gerada por essas substâncias, quando em colisão uma com a outra, eram quase infindáveis. Formamos então duas esferas. Uma composta de neutrinos e outra de positrinos.

Rapidamente descobrimos que neutrinos não se mantinham unidos. Gastava-se mais energia para mantê-los em um conjunto do que esse conjunto gerava em energia para nós. Simplesmente inviável. Já com os positrinos foi mais fácil.

Você pode estar se perguntando: Por que?

Os neutrinos não tem carga elétrica (daí o prefixo “neutr”, de neutro) assim como os nêutrons no núcleo dos átomos que nós conhecemos. Como então um átomo pode ter nêutrons em seu núcleo e não se desfazer? Existem outras duas cargas num mesmo átomo (as outras duas que restaram, obviamente) uma positiva, o próton, e uma negativa, o elétron. O nêutron está lá “segurando” as cargas positivas que também estão no núcleo de um átomo, anulando sua ação repulsiva. Afinal, se colocarmos pólos iguais de dois imãs juntos, eles vão se repelir, isso acontece também em escala atômica. Os elétrons (sendo negativos) não “grudam” no núcleo justamente pelo fato do nêutron neutralizar a ação positiva das cargas eletromagnéticas no núcleo. Os elétrons, não tendo outra opção por assim dizer, orbitam ao redor do núcleo. Além disso, eles, os elétrons, ficam muito afastados do núcleo. Para se ter idéia do tamanho da órbita de um átomo, imagine agora um estádio de futebol. No centro dele há uma bolinha de ping-pong, e você está na última fileira da arquibancada, lá em cima. A bolinha no centro do gramado é o tamanho do núcleo e a distancia entre você e ela é a distancia do núcleo em relação ao elétron. Portanto uma carga neutra não se “gruda” a outra carga neutra. Um lápis não gruda noutro lápis (a menos que se passe cola ou algo semelhante), no nosso caso, geramos campos eletromagnéticos tão fortes quanto gerados por tokamaks, que são as máquinas que geram o plasma, para mantermos os neutrinos unidos.

Mas ao misturarmos neutrinos com positrinos e gerarmos uma carga elétrica negativa de algumas centenas de voltz, foi o suficiente para mantermos a estrutura estável. E ao bombardearmos essa esfera com outros positrinos, conseguimos tanta energia que estouramos transformadores e queimamos alguns equipamentos da primeira vez.

O que conseguimos foram 2 Tw/s. Dois trilhões de watts por segundo.

E bastam pouco mais do que 0,0008 mols de positrinos para bombardear o núcleo por cerca de um mês.

Faça a conta comigo. Quantos segundos tem uma hora? Cerca de 3.600. Gerando 2 TW/s equivaleria a 7.200.000.000 MW/h.

Você sabe qual o consumo médio de uma cidade como Manaus? Cerca de 5.000.000 MW/h, ou seja, apenas 0,069% do total.

Já viu no que isso daria.

Uma forte disputa de poderes. A ciência às vezes ajuda e muito, mas cria sempre situações muito delicadas.

Eu disse que essa esfera tem um raio da ordem de 1×10^9 ? Ou seja, um nanômetro.

Foi no dia dessas descobertas e desses resultados mais do que animadores que conheci Chipou. Numa churrascaria, quando comemorávamos com minha equipe o sucesso nas pesquisas. Elas chegou deslumbrante e se apresentou.

Falou diretamente comigo, fitando-me absolutamente os olhos. Naquela claridade de final de tarde, quando o sol bate oblíquo nos muros em seu tom amarelado, seus olhos eram mágicos, hipnotizadores. Eu a conhecia de vista das vezes que visitei o FUCAFIQ. Sabia que ela era uma pesquisadora de lá e sabia da sua competência, mas nunca a vi daquele jeito. Na verdade nunca a tinha visto de nenhum jeito, talvez de costas e com um avental, quando me apontaram-na, mas nunca olhei seu rosto.

Até agora.

Apaixonei-me imediatamente.

Estava com os cabelos presos feito rabo de cavalo, um vestido azul. Sem alças.

Meus colegas só a perceberam ali alguns minutos depois. Ela apareceu mansamente e foi ficando. Eles depois me confessaram o quanto acharam-na bonita.

Depois desse jantar, saímos juntos!

Cheguei a achar que, por contribuir com tal importante descoberta científica, alguém com poderes acima de qualquer um de nós deu-me uma recompensa após anos de reclusão e estudo. A isso, eu agradeci.

Ledo engano é a paixão assim fulminante.

Chipou mostrava-se, obviamente, muito interessada nas pesquisas acerca da Esfera. Com bacharelada em Química com Doutorado em matéria sólida, ela entendia as coisa rapidamente, sem muitas explicações.

Era bonita e inteligente. Qualidades difíceis nas áreas de Ciências Exatas, sem preconceito! Geralmente mulheres assim trabalham na área Biológica.

De fato eu confiava em Chipou. Mostrava a ela nossas instalações e algumas das minhas anotações.

Até o dia em que meu chefe disse estar transferindo os recursos e o material da pesquisa para as mãos dos cientistas da FUCAFIQ.

O que aconteceu no dia seguinte da noite em que passei inteiramente acordado, após ter visto Chipou com ele em um restaurante no centro da cidade.

Eu não fazia idéia o quanto eu poderia ser tão tolo. Posso ser inteligente, mas provei que inteligência não é esperteza. Fui enganado. Enganado e traído. Tanto no trabalho quanto no lado pessoal.

Por que Chipou foi aparecer na minha vida? Só para me roubar o projeto mais importante da minha vida! E era tudo tão experimental ainda! Mas não houve argumentação. Durante uma semana ou mais, tive que dar palestras involuntárias sobre o funcionamento das máquinas, sobre as anotações, sobre tudo. Para que o pessoal do FUCAFIQ ficasse inteirado das pesquisas até ali.

Sabe quando você se sente um completo idiota? Quantas pessoas naquele auditório sabiam o que Chipou fez comigo? Eu não sabia dizer. Mas para mim, todos sabiam, e quando eu virava, parecia que alguns cochichos sempre eram sobre isso…

Chipou não apareceu a nenhuma das palestras, nenhuma das demonstrações do funcionamento do maquinário, nenhuma das vezes que tive que ir a FUCAFIQ para um ou outro esclarecimento.

Faz um mês que o projeto está lá com eles.

Hoje Chipou apareceu para mim desde aquele dia. E eu sinto que ainda a amo… o que há de errado comigo?

Ela me disse o que fez, não em seus detalhes, pois eu nunca quereria ouvir. Ela sabia do projeto e foi diretamente a mim. Sobe de tudo, passou pro pessoal do trabalho dela e então “falou” com meu chefe…

E, para algum consolo maquiavélico meu, ela disse que achava que participaria da equipe principal. Mas as coisas não foram assim para ela. Ela também ficara a ver navios.

É pra rir ou pra chorar?..

Por isso ela não aparecia a nenhuma das reuniões, além do fato de não fazer parte da equipe, parece que lhe abateu um grande remorso. Ela acabou descobrindo projetos muito mais prejudiciais para as Esferas do que os nossos, que eram puramente de contribuição para a sociedade. Eles queriam fazer de tudo. Mas para fins bélicos ou de propriedade particular.

Claro que eu e minha equipe poderia começar nossos próprios estudos tudo de novo. Não fosse a patente cedida pelo meu chefe à FUCAFIQ das Esferas. Agora era um projeto exclusivamente deles.

Chipou ainda chora. Ela estava nos laboratórios hoje de manhã. Disse que iam testar as Esferas em outra máquina, desenvolvida lá mesmo. A máquina prometia quadruplicar a energia gerada pelas Esferas.

Para quê tanta ganância?

Chipou está me olhando com seus lindos olhos verdes. Quase implorando calada por minhas palavras.

Eu lhe direi…

Lá fora ficou tudo escuro de repente. Um tremor imenso e tudo ficou branco.

– Chipou, eu…

Essas são as memórias de Runofrae Admael, descobridor da Energia escura e inventor da Esfera de Posi-Neutrinos até o exato momento em que sua invenção, nas mãos erradas, geraram no ano de 2042 um Segundo Bigbang. Dando reinício o nosso universo. Condensando matéria em um buraco negro e explodido a massa concentrada logo em seguida.

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