02 – Conto da Semana: O Bueiro


Não tinha mais que doze anos quando Marcos descobriu aquelas criaturas no esgoto.

Pode parecer um tanto perigoso e anti-higiênico, mas ele e sua pequena turma costumavam brincar nos arredores da entrada de um bueiro daquele de sarjeta, onde toda água deve escoar para dentro, que nada mais é do que uma enorme caixa de concreto com alguns canos no fundo. Morava em um bairro de periferia e aquele bueiro ficava na frente de um terreno baldio, diga-se de passagem, o melhor terreno baldio da cidade na sua opinião. Havia nele uma árvore e a carcaça de um Fusca 66 abandonado. Ele e mais três amigos que formavam o grupinho capinaram um pequeno pedaço onde batiam bola e jogavam bolas de gude, lá no fundo do terreno.

Era uma tarde avermelhada de setembro. Marcos e sua turma já tinham decidido voltar para casa naquela altura. Os outros meninos desceram na frente, Marcos foi o último a sair do terreno, ficara amarrando o sapato. Assim que pôs o pé no asfalto depois de saltar a boca do bueiro, ele ouviu aquele barulho molhado. De algo chicoteando na água.

Na água de dentro do bueiro.

Curioso, olhou por cima do ombro para dentro do bueiro. Só viu a escuridão. Quando pensou em desviar o olhar, um barulho grave brotou de lá de dentro. E novamente o barulho de algo chapinhando na água. Olhou para o fim da rua, seus amigos já desciam a uns cinqüenta metros. Não tinha coragem de gritar alto o suficiente para Chamá-los.

Mas teve a coragem de decidir olhar dentro do bueiro sozinho.

E olhou.

Sentiu um bafo quente e embolorado saindo lá de dentro ao aproximar-se se ajoelhando na rua. Devagar ele foi inclinando a cabeça para olhar o fundo do bueiro.

Não conseguia ver nada.

Até o momento em que aqueles olhos amarelos de pupilas em forma de fenda penetraram os seus de dentro das profundezas escuras do bueiro.

Petrificado, Marcos ficou a fitar aquele par de olhos, aproximou ainda mais o rosto da entrada do bueiro, quase encostava a testa na tampa. Os olhos lá em baixo piscaram uma vez, ainda olhando para ele diretamente. Um segundo par de olhos apareceu, desta vez à sua esquerda, a centímetros de seu rosto.

Desta vez o susto foi inevitável e ele jogou-se para trás, sentando e arrastando-se para o meio da rua. O peito arfante, o coração batendo alucinadamente e o suor que começara a brotar pegajoso em sua testa.

Do meio da rua, observou os olhos sumirem na escuridão. De dentro do bueiro um braço esguio mas musculoso, com unhas afiadas e coberto com um couro negro e brilhoso, saiu lentamente e tateou o chão devagar. Nada encontrando, tornou a voltar para a escuridão e os olhos amarelos voltaram a fitar os de Marcos.

Um carro vinha subindo a rua e jogou luz para que o garoto saísse do meio da rua.

– Que houve garoto? Tá querendo morrer? – praguejou o velho que dirigia o carro enquanto Marcos arrastava-se para o lado oposto ao bueiro.

Esperou o carro passar ainda sentado no chão, olhou para o bueiro, mas não havia mais nenhum par de olhos amarelos lá. Procurou ouvir também o outrora constante barulho de passos na água. Nada.

Praticamente correu de volta para casa.

Até hoje Marcos vê as criaturas em todo bueiro aberto que encontra.

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Há uma semelhança deste conto com o “A Árvore do Quintal”: as criaturas. Não por falta de imaginação minha, mas porque os dois contos surgiram no mesmo dia e quis explorar lados diferentes dessas criaturas que tinha acabado de criar: Agressivas ou esquivas? Quais seriam mais pavorosas? Até hoje não sei…

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