Il n’y a personne ici


Antes, quando Facebook eram só “likes” eu não percebia o quanto muitas vezes é escrota a opinião pública – ou ao menos a opinião de quem usa esta rede. No máximo se tinha uma noção se a postagem era impactante ou não. Com a opção em emoticons de sua reação em relação a determinada postagem – numa evidente tentativa de filtrar qualitativamente os perfis de todos aqui dentro – acabou que para mim fica claro que: ou se banalizou certos conceitos morais, ou o mundo sempre foi ignóbil como se mostra – apenas agora evidenciado de forma imediata por seus usuários que agem antes de pensar e externam a sua opinião com mesmo ímpeto de saciar uma longa sede. Sem falar nos discursos enfáticos que não fazem mais do que se perderem na teia desta rede, que se acham contribuintes de alguma forma de revolução, apenas sentados atrás de um computador, montando frases de efeito em programas de internet. Que quando confrontados em negativa, único argumento é o próprio argumento – não tem explicação. Se fazendo ouvir apenas por seus iguais, muitas vezes esquecendo da sinergia necessária para que algo realmente aconteça. Como dizer ao colega na mesa “Pô, comida ruim.” – “Sim, é mesmo.” e seguem a comer.


Houve um momento que não foi assim? Houve. Mas sabemos que não melhorou – ao menos não pra maioria.


Eu aqui também, mais um espectador aflito dessa sociedade doente, que de toda forma também não se exclui das responsabilidades, mas que segue tentando manter uma família e ganhar o pão de cada dia, na melhor forma possível. E que se espanta com a direção que as coisas estão tomando, pois não há guerra que torne o porvir paradisíaco. Não. Infelizmente acho que não. Pois se essa interação que percebo por aqui for mesmo o espelho da alma de seus usuários, eu não tenho como esperar coisas boas.


E penso assim por perceber o quanto impessoal nos tornamos. O quanto resumimos nossas vidas a pequenos dispositivos eletrônicos – com quem dialogamos intensamente, o dia todo. Um pedaço frio e pequeno de vidro, metal e plástico. Sem vida. Fica fácil falar, se expressar, curtir, amar, rir, odiar, se admirar e se entristecer. Emitir a ação da opinião de forma resumida e imediata, sem a esperada reação contrária, de igual intensidade, que pode ser lei da física, mas que certamente se aplica a este e outros meios.


Não sou contra a opinião, ou contra a mecânica do Facebook, ou contra os encurtamentos de comunicação que ele oferece – longe de mim. Mas nossos amigos estão ali, no alcance de nossas mãos – hão de defender – mas não, não estão. “Ceci n’est pas une pipe” – escreveu Magritte em um dos seus famosos quadros. “Il n’y a personne ici” – eu escreveria no Facebook.

A Traição das Imagens - Renné Magritte

A Traição das Imagens – Renné Magritte

Anúncios
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: